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agosto 19th, 2011 § Deixe um comentário
Inimigo invisível;
Fonte inesgotável de esperanças vãs; a transbordar o desespero.
Filha ingrata;
esculturas sombrias na claridade, caminhos errantes no silêncio da madrugada.
Manto de agonia a encobrir os meninos,
fracos, perdidos em si mesmos, enganados na certeza.
Um Dia
setembro 21st, 2010 § Deixe um comentário
Rebate no íntimo meu o fogo das ruas, sua verve inexcedível e sempre sempre renovando-se, subindo pelos degraus puídos, dobrando golas de roupas puídas, eco atrás de eco, sombras pavorosas e sombras tão doces do sol subindo no muro ou nos mil muros da suicidade, sim, a monstrópole me pede um níquel e eu lhe dou o que não tenho, dou-lhe o que tenho: a barba por fazer, dou-lhe uma tez de sempre alegria, apesar de tudo, apesar de você e apesar de mim, vou por aí, caminhando e cantando e seguindo a canção, até porque de tudo se faz canção e caução, e o fio da vida, por tênue, exije respeito, carinho, redobrada atenção é o que a vida exije, e por isso deve-se estar atento e forte, sem tempo de temer a morte, e eu aqui estou nesta masmorra de onde vejo o Bósforo, de onde percebo a bunda de mil moças em Jericoacoara, de onde sinto odor de saborosíssimos quibes esquentando a alma do povo numa rua qualquer de um país que tem mais descendentes de libaneses do que o Líbano, sim, cá estou no meio da via pública, meio atarantado, também sou mulher, sou Yin e Yang, e nado conforme posso, mas não nem sempre conforme manda e/ou assim exije a showciedade, e sei que na curva de um rio alguém está à espera, sim, todo rio tem quatro margens, e só eu sei disso, mas agora tu também sabes que todo rio tem quatro margens: superfície, fundo, esquerda e direita margens. Está frio e quente, somos assim: presos entre as dualidades que perfazem toda a nossa visão de Mundo (Weltanschauung), a nossa psiquê faz com que nós reajamos assim ou assado a esta ou àquela situação, pois tudo, como eu escrevi num poema que deixei na boca do coração de todas e todos, é flutusituação, sim, já repito que a vida é de flutusituações feita, e é bom que assim seja, embora já se tenha dito também que “o tédio também tem seus encantos”, e eu sou Ivan, O Terrível, sou Macunaíma, sim, Macunaíntimo de Mim, prossigo por estas ruelas, becos e superestruturas arquitetônicas, hiperativo ou com síndrome de down, o fato é que devo ir mais longe do que eu mesmo, devo tratar dos meus passarinhos (pardais, o vira latas entre os pássaros, pois não canta, é feinho, dorme alhures, e come de tudo, e cujo nome científico é Passer domesticus L.). Sim, vi um rapaz com uma câmera, vi, sim, a beleza em seus olhos. Vi também uma moça com olhos de céu azul, com uma câmera e mil desejos. Vi e senti.
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Texto escrito especialmente para o Flickr do WDROOPS (21-10-2010, às 08:10h)
Darlan M Cunha
Benditas Fomes
setembro 13th, 2010 § Deixe um comentário
Benditos os que têm fome de si e mergulham fundo no âmago do ser, arrancam dissabores do paladar medíocre, farto de migalhas caídas da mesa de Narciso. E os insaciados no apetite de beber do próprio poço e devorar gorduras impregnadas nas reentrâncias da alma.
Benditas as mulheres famintas de amor, feitas de fios de renda, a tecer a vida na magia de pequenos gestos cotidianos: a cozinha limpa, o feijão catado, a cama arrumada e o vaso da janela regado de ternura. Elas conduzem a lua como um farol que, mês a mês, atrai seus corpos para rubros mares prenhes de vida.
Bendita a fome itinerante de homens ávidos de saber, curiosos quanto aos mistérios desse breve existir, e cujas mãos transmutam árvore em mesa, trigo em pão e leite em manteiga. Generosos, não precisam exibir espadas para provar que são guerreiros. Espalhada à sua volta, a sombra do aconchego aninha a família em segurança.
Benditos os que reverenciam o sol, a flor, a água e a terra, e trazem um coração ao ritmo das estações, confeiteiros de primaveras espirituais. Esses sabem encher suas taças de chuva e assar o pão no calor de amizades.
Benditos todos que se irmanam ao canto telúrico de Francisco e dançam ao ritmo alucinado dos girassóis de Van Gogh, impregnados da sabedoria búdica que não se algema à nostalgia do passado, nem se precipita na ansiedade do futuro. Eles saboreiam o presente como inestimável presente.
Benditas a manhã reinaugurando a vida após o sono; a idade esculpindo rugas carregadas de histórias; e a todos que, saciados de anos, não temem o convite irrecusável das bodas de sangue que, afinal, haverão de saciar a nossa fome de beleza.
Benditos os bem-aventurados na ânsia de ver repartido o pão da vida, sem encher a bolsa de sementes de podridão. Esses sentam-se à mesa com espírito solidário e têm direito à embriaguez do vinho que, transubstanciado, encharca o coração de alvíssaras.
Benditas as mãos que traduzem sentimentos e semeiam carícias, aplacando a fome de afeto. E os olhos repletos de luzes e as palavras floridas de beijos. E esse voraz apetite de silêncio, leve como o vôo de um pássaro.
Benditos a gula de Deus, os vulcões ativados nas entranhas, o arco-íris da pluralidade de idéias, a confraria das boas ações, os livros que nos lêem, os poemas ecoados no centro da alma, a rua deserta ao alvorecer, o bonde invisível, a vida sem medos.
Benditas a ira contra os pincéis que rasgam telas; a luxúria dos balés musicados por virtudes; a preguiça dos sinos de igrejas; a avareza de quem se guarda dos vícios; e a lenta maneira de fazer crescer plantas, cumplicidades e gente.
Benditas as fomes de transcendência, de prefigurações do eterno, de jovialidade do espírito, do bolo fatiado pelo cuidado materno, de vertigens místicas, de astros acelerados pela rotação de tantos sonhos redivivos.
Benditos os machados cientes de que seus cabos são feitos de árvore e as gaiolas abertas à liberdade; as agulhas que tecem o avesso da dessolidariedade e as facas de pontas arredondadas; a música de emoções indeléveis e os espelhos que refletem as mais saborosas oferendas da existência.
Benditas as fomes insaciáveis: de saber e de sabor; de despudor no amor; de Deus sob todos os nomes inomináveis. Fome de ócio sem culpa, de alegria interminável, de saúde e de prazer. Fome de paz. Saciada plenamente por justiça – a mais bendita das fomes, capaz de erradicar a fome maldita.
Frei Betto
A impenitente fornicação cristã (O que fode com o cristianismo somos nós.)
maio 7th, 2010 § 2 Comentários
Tenho um amigo que é um santo secular, absolutamente sem religião, que concilia as façanhas de ser homem de família, artista irretocável e portador das boas novas aos pobres (sendo que eu, naturalmente, não sou nenhuma dessas coisas). Certa vez esse sujeito estava falando comigo sobre outro cara, amigo dele, que ele considera ser ao mesmo tempo artista mais notável e muito mais engajado nas questões sociais do que ele mesmo, um cara que meu amigo tem por seu herói pessoal.
Nesse momento ele parou o seu relato para perguntar:
– E você, Paulo, tem heróis?
Apanhado de surpresa, ocorreu-me responder de modo ao mesmo tempo provocativo e sincero. Ergui uma sobrancelha e arrisquei, como se estivesse em grande dúvida:
– Jesus?
– Jesus não vale – exigiu meu amigo. – Jesus é o herói de todo mundo.
Achei aquilo fascinante, tanto a noção de que Jesus pudesse ser o herói secreto daqueles que não usurpam o seu nome quanto a ideia subjacente, de que mesmo quem admira Jesus carece sensualizá-lo, encontrar-se efetivamente com ele numa pessoa de carne e osso que adequadamente encarne os seus valores e desafios. Eu conhecia uma pessoa assim, o Néviton Marci, mas antes que pudesse mencionar o nome dele meu amigo avançou seu argumento. Sabendo que minha menção a Jesus tinha sido em grande parte uma provocação sobre sua postura arreligiosa, ele prosseguiu:
– E você sabe muito bem que eu tenho um relacionamento de amor platônico com o cristianismo – e, para explorar todas as possibilidades da metáfora, arrematou: – Eu não fodo com o cristianismo como vocês fazem.
Eu, que nunca tinha visto meu amigo recorrer a um palavrão, tive de render-me imediatamente a sua lógica, sua lucidez e sua indignação. Porque quanto mais nós cristãos tentamos foder com o cristianismo, no sentido de conhecê-lo (biblicamente falando) e de nos relacionarmos intimamente com ele, mais acabamos fodendo com ele, no sentido de arruiná-lo juntamente com a sua reputação. Deveria nos parecer evidente que ler, escrever, estudar e tagarelar incessantemente sobre Deus e sobre a Bíblia, seja em livros ou blogs, no rádio ou na tv, na igreja ou no local de trabalho, não tem absolutamente qualquer relação de fidelidade com a herança de Jesus ou com os desafios deixados pela sua mensagem. Gente sem religião como meu amigo e seu herói, que não usurpa publicamente o nome do Filho do Homem, é capaz de levar adiante a sua boa nova e honrar a sua herança de forma muito mais aperfeiçoada do que o mais inatacável e articulado dos cristãos. Porque, muito evidentemente, o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder.
Aplica-se aqui, de forma irretocável e como sempre, a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. Por um lado, os cristãos somos os fariseus que agradecem em voz alta, na luz de um palco que construímos para nós mesmos, a dádiva de não sermos pecadores como os irreligiosos; por outro, os irreligiosos que fazem avançar secretamente o reino são como o cobrador de impostos, que não ousam assumir a ribalta e não se consideram dignos de levantar a cabeça nem mesmo para proferir o nome do herói cuja herança poluímos. Fique muito claro, porque esse mesmo Jesus deixou-o muito claro, que não seremos nós a merecer o abraço de confidência do mestre.
O que fode com o cristianismo somos nós.
A Bacia das Almas
Paulo Brabo
Quando estou Fraco, então sou forte
abril 27th, 2010 § Deixe um comentário
“E disse-me (o Senhor): a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então sou forte.” II Coríntios, cap. 12, verss. 9 e 10.
Arrepender-se é mudar o mundo
janeiro 26th, 2010 § 1 Comentário
…. Deus não quer nos salvar das nossas faltas ou do castigo que elas requerem, o que seria fácil demais; seu ambicioso e exigentíssimo plano é salvar-nos da nossa mediocridade. Seu plano é salvar-nos de nós mesmos.
Paulo Brabo
Novamente
dezembro 2nd, 2009 § 2 Comentários
…. você acorda pensando que não irá fazer mais, mas você sabe que na primeira oportunidade cairá, sabe que isto esta te destruindo por dentro, consome seu tempo, desanima qualquer iniciativa de projetos novos.
Você finge lutar, e as vezes luta mesmo, chega até a ficar algum tempo, mas não é verdadeiro, pois tinha que ser natural, todo esforço por sincero e puro que seja, por ser esforço uma dia será vencido.
Você lembra no passado quantas vezes você chorou, se trancou e orou para não mais percorrer esse caminho, e sempre retorna.
Você sabe que vai se dar mal, que vai ter descrédito e que ficará com a reputação manchada, e isso te assusta.
Amanhã será um novo dia, e você voltará a pecar novamente.
William
Caminho
novembro 24th, 2009 § 9 Comentários
Eu li certa vez em um blog, não me lembro qual, mas era mais ou menos isso.
Seguir a Jesus siginifica :
- Fazer o que Ele fez ( ajudou as pessoas, caminhou entre os humildes, combateu as estruturas, etc.)
ou
- Ser como Ele foi ( revolucinário, provocador, verdadeiro consigo mesmo, não importando com a opinião dos outros, surpreendente nas atitudes, contrariando o que se esperava)
William
Já sei por onde não ir
novembro 20th, 2009 § Deixe um comentário
…..Enquanto o cenário draconiano me rodeia pela página impressa, ouço os pastores. Eles parecem alienígenas vindos de um mundo perfeito. Falam de uma existência sem sofrimento, de uma prosperidade mágica, e de vitória em todo e qualquer percalço. Percebo-os como patifes que minimizam os descalabros nacionais como se fossem “maldições” espirituais. Sabem encurralar o povo sofrido no beco da culpa: “Se você enfrenta dívidas e crises conjugais decorrentes de seus problemas financeiros, com certeza não está pondo sua fé em ação”. São para mim mercadejadores da Palavra que desafiam os desvalidos nacionais com a cara mais lisa e ordinária: “Venha fazer a campanha de Gideão, da Fogueira Santa, do Sal Grosso, das Muralhas de Jericó e acabe seu sofrimento”.
Ricardo Gondim
Já sei por onde não ir






