Um Dia
setembro 21st, 2010 § Deixe um comentário
Rebate no íntimo meu o fogo das ruas, sua verve inexcedível e sempre sempre renovando-se, subindo pelos degraus puídos, dobrando golas de roupas puídas, eco atrás de eco, sombras pavorosas e sombras tão doces do sol subindo no muro ou nos mil muros da suicidade, sim, a monstrópole me pede um níquel e eu lhe dou o que não tenho, dou-lhe o que tenho: a barba por fazer, dou-lhe uma tez de sempre alegria, apesar de tudo, apesar de você e apesar de mim, vou por aí, caminhando e cantando e seguindo a canção, até porque de tudo se faz canção e caução, e o fio da vida, por tênue, exije respeito, carinho, redobrada atenção é o que a vida exije, e por isso deve-se estar atento e forte, sem tempo de temer a morte, e eu aqui estou nesta masmorra de onde vejo o Bósforo, de onde percebo a bunda de mil moças em Jericoacoara, de onde sinto odor de saborosíssimos quibes esquentando a alma do povo numa rua qualquer de um país que tem mais descendentes de libaneses do que o Líbano, sim, cá estou no meio da via pública, meio atarantado, também sou mulher, sou Yin e Yang, e nado conforme posso, mas não nem sempre conforme manda e/ou assim exije a showciedade, e sei que na curva de um rio alguém está à espera, sim, todo rio tem quatro margens, e só eu sei disso, mas agora tu também sabes que todo rio tem quatro margens: superfície, fundo, esquerda e direita margens. Está frio e quente, somos assim: presos entre as dualidades que perfazem toda a nossa visão de Mundo (Weltanschauung), a nossa psiquê faz com que nós reajamos assim ou assado a esta ou àquela situação, pois tudo, como eu escrevi num poema que deixei na boca do coração de todas e todos, é flutusituação, sim, já repito que a vida é de flutusituações feita, e é bom que assim seja, embora já se tenha dito também que “o tédio também tem seus encantos”, e eu sou Ivan, O Terrível, sou Macunaíma, sim, Macunaíntimo de Mim, prossigo por estas ruelas, becos e superestruturas arquitetônicas, hiperativo ou com síndrome de down, o fato é que devo ir mais longe do que eu mesmo, devo tratar dos meus passarinhos (pardais, o vira latas entre os pássaros, pois não canta, é feinho, dorme alhures, e come de tudo, e cujo nome científico é Passer domesticus L.). Sim, vi um rapaz com uma câmera, vi, sim, a beleza em seus olhos. Vi também uma moça com olhos de céu azul, com uma câmera e mil desejos. Vi e senti.
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Texto escrito especialmente para o Flickr do WDROOPS (21-10-2010, às 08:10h)
Darlan M Cunha